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Dicas de Paul Simon sobre composição

A forma como escrevia canções há dez anos era bem diferente de meu método atual de trabalho. Depois de anos compondo, somente nos dois últimos anos é que desenvolvi um sistema. Costumava trabalhar de rompantes em vez de lenta e firmemente, mas agora acho que dedicando um pouco de tempo a cada dia-se estou em época de compor – consigo mais do que se simplesmente resolvesse esperar que uma canção acontecesse. Uma das vantagens de trabalhar assim é que se pode acompanhar o crescimento de uma canção, de seu nascimento até o final.Trabalhando com rítmo, geralmente levo de quatro a seis semanas para terminar uma canção, mas se não estou trabalhando com rítmo a coisa pode levar de quatro a seis meses.

O processo de composição

Trabalho com meu violão e um caderno, gastando cerca de cinqüenta páginas para criar uma canção. Consigo render bem pela manhã porque minha mente está bem desperta, começando pela data e comentários pessoais sobre como estou me sentido naquele dia, de forma que ele assume um caráter de diário. Lentamente uma canção começa a nascer, muito embora às vezes possa estagnar-se por dias a fio, não oferecendo progresso algum. A primeira página poderá ter todo tipo de frases que jamais virão a ser utilizadas, mas um pensamento qualquer poderá sobressair e sugerir algo de potencial.
Esses cadernos são os melhores registros que tenho de como minhas canções se desenvolveram, em termos de letra. Não guardo registros musicais, ( muito embora gostaria de ter referências do material mais antigo) mas como eles foram escritos em pedaços de papel, não existem mais muitos hoje em dia.
Tenho colocado o máximo de informação possível numa canção já no comecinho, e meu primeiro passo é escrever a estrutura da letra. Se, por exemplo, uma canção é uma simples A, A ,B ,A – verso, verso, segunda parte, verso – e o primeiro verso tem oito linhas, escreverei um, dois, três, etc., depois colocando o título da canção na oitava linha, se é ali que desejo.
Já sei que no próximo verso terá a mesma estrutura, mas é pouco provável que vá cair na oitava linha porque aquilo seria previsível demais. Pelo contrário, a canção deve terminar com o título, de forma que o coloco na última linha e talvez também no segundo verso, sabendo que ele poderá ser descartado mais tarde.
Se o título for interessante e evocativo, eu o utilizarei como inspiração ou o incluirei na estrutura da canção, rascunhando-o a lápis em certos trechos. Por exemplo, há uma canção na qual estou trabalhando no momento chamada Train in the distance, na qual uma linha repete –“ everybody loves the sound of the train in the distance, everybody thinks it’s true”. Pelo fato de um trem a distância ser uma metáfora interessante para esperanças e aspirações, aquele trecho será utilizado ao longo da canção. As vezes, entretanto, o título é apenas um título, como foi o caso de “Late in theevening.” Se tivesse conseguido um outro título, teria feito qualquer coisa para não ter uma canção intitulada “Late in the evening”, mas foi assim que a coisa aconteceu e não relutei.
Se acontece de um tema ser o primeiro verso, anotarei isso. Não faço anotações nem escrevo em folha de música, mas estou sempre pensando na estrutura da canção, por exemplo, devo tirar uma frase que estava na abertura – ou o título – e utilizar parte dela mais tarde, ou inverte-la, ou utilizá-la na segunda parte. Também poderá ser utilizada de uma forma inesperada, porque o ouvinte normalmente está tão familiarizado com a estrutura das canções que na maioria das vezes ele ou ela sabem, consciente ou inconscientemente, que um determinado verso será repetido. Isso funciona tanto a favor quanto contra o compositor; existe um certo prazer em receber o que se espera, mas o lado ruim é que isso pode ser chato. Entretanto, geralmente procuro oferecer o que as pessoas esperam, porque se uma estrutura familiar funciona mas a gente a torna pouco familiar a coisa pode incomodar ou atrapalhar o ouvinte. Se um compositor cria arbitrariamente uma estrutura familiar e depois a quebra sem motivo, a canção tende à divagação e à incoerência; também é mais difícil de se escrever um canção assim.
Um dos alcances mais satisfatórios – se você consegue fazer a coisa funcionar – é quando uma canção segue um caminho circular e termina onde deveria ter começado, apenas um plano acima – como uma espiral. Você vai erguendo camadas e quando volta ao começo sente que é familiar, mas você deve ter erguido camadas suficientes para que no retorno ao começo você tenha visto que não é mais o mesmo clima, título ou melodia.

Texto extraido do livro “ Fazendo Música”
de George Martin.

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